"Retornar aos sertões me mostra que a Chapada Diamantina não é longe de Canudos. Uma dúzia de horas separa estes dois portais que magnetizam Meus Corpos e Atenção. Parece possível conciliar os dois. Habitá-los revezadamente. Quem sabe criar algumas raízes, depois de tanto ter estudado minhas famílias e profundezas. Mover-me dá muito Trabalho e talvez seja hora de concentrar-me em outras ações, mais específicas."
O sorriso da foto não fala da energia entregue às readaptações.
Pratico encontrar poesias em toda cena, em todo canto, em toda fala.
Sertão pra mim é Nanã, mãe velha, das lamas, das águas antigas, da lava morna e lenta debaixo do chão. Sertão pra mim é Maria, é Dulce, é Marizete, é Madalena, é Marineide.
É Mulher. É Caatinga. É piso de pedra lascada, areia em pó, sino e cabras e assobio de passarinhos que não vejo - só escuto.
Pergunto-me se frequento os sertões para surprir o gosto de me sentir mais forte.
A Roça me seduz com oscilações pendulares de Encanto e Tédio.
Limites: aperto-me em minhas próprias beiradas. Reparo meu fluir. Imerjo no Presente, como se não houvesse passado nem futuro de qualquer sorte.
No aqui e no agora de outrora, deixo Canudos me envolver de novo.
Acredito que a densidade da dieta sertaneja acelere meu aterrar.
A carne de bode secando no varal, o toicinho embelezando o teto da cozinha, os ovos fritos em banha, os pães de lenha e o cuscuz com manteiga, a batata-doce, os bolos de leite, o leite da cabra, a farinha da mandioca, a cocada de Maria, o manuê de Andreia. Minha mãe diz que ganho bochechas sempre que chego à Bahia... Na Roça, as Mulheres Antigas me elogiam por isso. Elas gostam de ver meus braços mais fartos, tão fortes como eu.
Uma poetisa me entrega uma palavra nova: "andarina". Estou a dançar só na sala de uma das casas que habitei neste último Sertão quando penso no balé que minha criança bailava. "Andarina" me sugere a Dança Do Corpo No Mundo, o formigamento vetorizado que direciona meus pés, a impermanência que dramatiza Meu Fluxo.
Retornar aos sertões me mostra que a Chapada Diamantina não é longe de Canudos. Uma dúzia de horas separa estes dois portais que magnetizam Meus Corpos e Atenção. Parece possível conciliar os dois. Habitá-los revezadamente. Quem sabe criar algumas raízes, depois de tanto ter estudado minhas famílias e profundezas. Mover-me dá muito Trabalho e talvez seja hora de concentrar-me em outras ações, mais específicas.
Volto ao Capão para umidecer a ânsia do Desconhecido. Minha Mochila se sente cansada. Eu também. É por isso que vamos parar. Vamos morar, enfim.
Lia Rezende Domingues
Canudos e Vale do Capão/BA
11 de agosto de 2021
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